“Tá com pressa, puta?”

Eu gosto do mundo moderno e do constante desenvolvimento da tecnologia. De verdade. Pesquisas com células tronco, videogames de última geração, televisões de plasma, biocombustíveis, telefones tocadores de música com telas sensíveis ao toque, internet móvel e todas essas utilidades e inutilidades que permeiam nossa vida hoje em dia. Apesar de todos os pesares (que não são poucos), eu tenho convicção de que todas as invenções de nossa era foram pensadas com o intuito de facilitar a nossa vida. Intuito esse que deveria ser uma das premissas básicas da existência humana. Mas existe uma variável muito, muito complicadora: o ser humano.
Prova inquestionável do quão complicadora é essa variável são os veículos automotores que, depois da internet (pelo menos enquanto o teletransporte não transcende a série Jornada nas Estrelas), são os maiores encurtadores de distâncias que eu conheço. Se você quiser conhecer toda a Sudamérica, não há dúvidas de que um veículo automotor será de grande utilidade. O mesmo vale se você quiser conhecer todo o país. Ou todo o estado. Ou aquela simpática cidadezinha vizinha à sua, cuja maior efervescência social resume-se à praça da igreja matriz nas manhãs de domingo.
Mas, obviamente, não há problema algum no caso de você ter objetivos mais modestos: se você quiser simplesmente se deslocar de sua confortável morada até a padaria, à casa de sua ou seu consorte, ao cinema, ao salão de beleza, à hoje mais cobiçada do que nunca (e, com base em acontecimentos recentes, de facílimo acesso) faculdade, ao bar no centro da cidade, ao teatro, a uma casa de shows, ao trabalho, ao diabo que te carregue, sim, um veículo automotor – tá, tá, usemos as palavras “carro” e “moto”, daqui por diante – será de grande utilidade.
Ah, o homem, este adorável ser que, quando vivendo em sociedade, tem a capacidade incrível de estragar tudo. Vez ou outra se vê nos meios de comunicação que um dos grandes problemas das grandes metrópoles é o trânsito. O trânsito. Aquilo que deveria ser a respeitosa e cordial interação entre todos aqueles que precisam se locomover, pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas, nesta ordem de importância, hoje é um dos grandes males do mundo atual (usei o termo “moderno” no início, mas confesso que com medo. “Atual” é um termo menos suscetível à obsolescência). Em todos os jornais, e em telejornais, e em revistas, e em blogs, e em sinais de fumaça (literalmente), e em pessoas com fraturas diversas se vê o caos que está o trânsito nestas grandes metrópoles. Bom, como eu não sou engenheiro de tráfego, só posso me limitar a repetir o que dizem os especialistas que aparecem nos noticiários de quando em vez tratando do assunto: a culpa é do transporte público ineficiente, das condições tentadoras à aquisição de um automóvel, à nossa sociedade cada vez mais individualista, consumista e imediatista, et cetera, et cetera, et cetera. E olhe quem eu nem vou entrar na seara da poluição em tempos de aquecimento global.
E tendo em vista o desolador atual estado das coisas, tem como piorar? É claro que tem! É só parar para imaginar que todos estes transtornos das grandes metrópoles acontecem (guardadas as devidas proporções, espero que seja desnecessário lembrar) em cidades de médio porte, com, digamos, seiscentos e poucos mil habitantes. E essa cidade existe? É claro que existe! Senhoras e senhores, abram alas para Feira de Santana – BA.
Ah, o homem feirense, este adorável ser que, quando dentro de seus carros ou em cima de suas motos, a pé ou de bicicleta, e mesmo guiando suas carroças de burro, esquecem que vivem em sociedade e que fazem parte do que deveria ser uma respeitosa e cordial interação entre todos aqueles que precisam se locomover (estou me repetindo? É de propósito) e, dentro de seus carros… Enfim, o que eu quero dizer é que a maioria esmagadora dos condutores deixam o bom senso, isso quando não o cérebro inteiro, em casa ao pegar seus veículos a caminho de seu destino. Não existem limites de velocidade, Todos sempre precisam tirar o pai da forca e esquecem que algumas pessoas podem ter urgência de fato (mesmo as que não tem carro). Pra essas pessoas não existem faixas, nem de ultrapassagem e, muitas vezes, nem de pedestres, não se usam setas para sinalizar uma curva ou uma simples mudança de faixa (mas pensando bem, qual a utilidade de se sinalizar a ida para algo que não existe, não é mesmo?), ou seja, não se usa a educação. É, educação, porque quando estamos nos nossos carros temos a oportunidade de ser quem realmente somos: individualistas, mesquinhos, incapazes de pensar na segurança alheia, mal-educados. Melhor dizendo, grandes e completos idiotas. É, idiotas.
Pra ficar bem claro: você estaciona em fila dupla enquanto alguém que estava com você no carro vai fazer umas comprinhas “rapidinho, não multa, não, seu guarda, já volto” atrapalhando o já caótico trânsito da cidade? Você é um idiota. Você tem uma dessas caminhonetes mastodônticas super caras e acha que tem preferência simplesmente por que o tamanho do seu carro é inversamente proporcional ao tamanho do seu bilau? Você é um idiota. Você acha que precisa cruzar a cidade em menos tempo que Michael Schumacher completaria o quilômetro de arranque na pista do “aeroporto”? Você é um idiota. Você acha que vive atrasado e que nunca tem tempo pra nada, pois o mundo gira ao seu redor e que se você parar ele também pára? Você é um idiota. E a pergunta definitiva, feita em maiúsculas pra ficar bem clara para todo morador de Feira de Santana: VOCÊ ACHA QUE VIVE NUMA MEGA-METRÓPOLE ONDE O TEMPO É MATÉRIA-PRIMA ESSENCIAL PARA TODO E QUALQUER OBJETIVO SEU, SEJA PROFISSIONAL, AMOROSO, FINANCEIRO, RELIGIOSO, SEXUAL OU SEJA LÁ QUE DIABOS FOR? VOCÊ É, IRREVERSIVELMENTE, UM GRANDESSÍSSIMO IDIOTA DE MERDA.
É isso. Duvido que o trânsito feirense melhore graças a essas mal-digitadas linhas, mas me sinto melhor por simplesmente poder falar dessa mazela toda.

Ah, a propósito do título, se me lembro bem, foi a primeira piada com um palavrão adulto, de fato, que eu aprendi. Transcrição do diálogo da primeira vez que eu contei pra alguém:

-Aí, quer ouvir uma piada que eu aprendi?
-Conte aí.
-É assim, tava o cara com o carro parado, daí encostou uma mulher num carro, no fundo do dele, toda apressada, buzinando o tempo todo. Daí toda vez que ela buzinava ele falava “tá com pressa, puta?”. E assim ficou um tempão: “bibííí”; “tá com pressa, puta?”. “Bibíííí!!!”; “tá com pressa, puta?”.
-…
-…
-…
-E a piada, vai terminar de contar, não?
-”Tá com pressa, puta?”

5 Respostas para ““Tá com pressa, puta?””

  1. Muito bom, Will. Você escreve muito bem, moço!! Aguardo novos textos. ;-) Beijos!

  2. Essa piada tbm fez parte da minha infância hehehehe classica

  3. A piada do final foi fraca.

  4. Marcelo Sales Diz:

    Pow cara muito bom seus textos, não sabia que vc escrevia tão bem, parabens velhão, vou colocar seu blog entre os meu favoritos!!!

  5. Marcio Miranda Diz:

    É meu “veio” muito bom os textos, o bom é que se todos tivessem como lê-los, seria ótimo, como não, “vontade” melhor dizendo. Realmente precisamos abrir os olhos dos seres humanos.

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