Internalfabetismo
Algumas coisas deixam marcas indeléveis na nossa vida. Essas coisas ora nos fazem sorrir, ora nos fazem chorar, perder o sono, tremer, suar frio. Mas quando chega o momento em que conseguimos ter pleno domínio sobre elas, nos sentimos mais calmos, leves, felizes. Não, não estou falando de amor, paixão ou coisa que o valha. Até por que eu não sei se me referiria assim, com tanta eloquência, a algo que pode ser substituído de maneira relativamente fácil por chocolate (as mulheres que o digam).
Me refiro às, àquela altura, meus 10 ou 11 anos, “famigeradas” aulas de português. A razão do “famigeradas”: eu sempre gostei muito de ler, desde moleque. Era do tipo que pegava os livros de português assim que chegavam (escola pública, interior de Sergipe, os livros normalmente chegavam coisa de um mês após o início das aulas) e lia todos os textos logo de uma vez, pois era o que, objetivamente, me interessava. E isso é perfeitamente compreensível, afinal, paradoxalmente, ou não, os textos eram coisa de “gente grande”, como excertos de “Bisa Bia, Bisa Bel”, de Ana Maria Machado, como “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, “Lixo”, de Luís Fernando Veríssimo, “A Barata e o Rato”, de Millôr Fernandes, só pra citar alguns. Coisa muito fina.
Mas como tudo que é bom acaba, não importa o quanto dure, também não importava quantas vezes eu lesse ou relesse os textos, da frente para trás, de baixo para cima, ou qualquer outra ordem esdrúxula que pudesse existir para se ler qualquer texto, eles eram apoio para as lições de gramática. Essas sim, eram meu suplício. À essa altura, eu detestava língua portuguesa tanto quanto eu detesto matemática. Posso assegurar que detesto matemática o bastante para fazer esta comparação. Primeiro, porque, de alguma maneira que eu nunca conseguirei explicar, chegada a hora da aula, tudo aquilo que eu havia lido com tanto gosto simplesmente se esvanecia da minha mente, como se fosse alguma ordem da minha mãe para que eu me comportasse na escola; segundo, porque a norma culta da língua brasileira é, de fato, complicada. Por exemplo, eu, ainda hoje, não sei direito quando e como eu devo usar os “porquês” (qualquer hora dessas elejo um único “porquê” e mando a norma culta às favas). Junte-se a isso todas as outras regras de semântica, sintaxe, morfologia e tudo o mais, e temos aqui um aluno que deixa muito a desejar no que diz respeito ao conhecimento da escrita de sua língua. Mas, no ensino médio, se não me engano, mais uma vez de maneira que jamais saberei explicar, tudo que eu havia lido voltara à minha mente, agora, cheia de baboseiras adolescentes. Talvez fosse o que me faltava antes. Continuei (e continuo) não entendendo a maior parte das regras da língua, mas era impressionante como as coisas aconteciam de maneira espontânea na hora de escrever. Eu não sabia o porquê de uma vírgula estar em determinado lugar, mas sabia que ela ficava bem ali, e isso me era (e é) mais que suficiente. Acho que fui salvo por divindades da grandeza de Ana Maria (Machado, por favor), Drummond, Veríssimo e Millôr.
Agora vamos ao que interessa: qualquer um com acesso à internet, sobretudo sites de relacionamento, fotologs e afins, terá uma noção do quanto a juventude (e até mesmo alguns mais velhos) não sabem o que fazer com a língua em que falam, lêem e escrevem, principalmente a que escrevem. Não adianta me chamar de reacionário, por que isso eu não sou, nem adianta me falar que a língua é dinâmica e contextual, por que disso eu sei muito bem. Estão aí Marcos Bagno, Thaïs Christófaro Silva, Roque Laraia, Roberto DaMatta e outros que entendem de língua, de gente e de língua e de gente, que não me deixam mentir. No que diz respeito à contextualidade da língua, até me ofende alguém cogitar a possibilidade de eu simplesmente estar de birra com quem escreve “vc” em vez de “você”, “kd” em vez de “cadê”, “qd” em vez de “quando” e daí por diante. Primeiro, porque eu estou entre os que fazem essas mudanças, inclusive, por uma questão de dinamismo (e preguiça) ao conversar com algúem no ciberespaço, pois eu tenho consciência de que, em se comunicando, o importante é se fazer entender, e, se esse dialeto do ciberespaço, esse “internetês” (por favor, não confundir com o “minguxês”, que tem lá sua função lingüística: simplesmente, parecer idiota), é satisfatoriamente codificado pelo emissor e decodificado pelo receptor, ótimo, a língua cumpriu sua função dentro deste contexto; segundo, por que Ledo Ivo também já o fez com suas poesias, e ele está entre os que entendem da língua e de gente.
Mas o que dizer quando alguém escreve algo incognoscível, um monte de palavras emaranhadas que só fazem sentido para quem as escreveu, sendo que quem as escreveu tinha o intuito de transformar esse emaranhado de palavras numa mensagem a ser decodificada por um grupo? Se esse grupo consegue entender de fato (e eu duvido que consiga), já vi que estou completamente por fora. Não falo esse idioma.
Ainda apelando para a contextualidade: falamos a língua em que vivemos. Além de serem naturais e necessárias as mudanças inerentes à esta, é também perfeitamente natural que qualquer indivíduo cometa erros ortográficos de acordo com a norma culta, afinal, a norma culta do português do Brasil consegue ser complexa como poucas. Considerando a vedete econômica que se tornou a China, não duvido que chegue um dia em que falemos chinês melhor que falamos a língua mãe. Mas estou me desviando do assunto, o falar é o mínimo, eu até acho que é a mais primitiva demonstração de capacidade. Acho também que, às vezes, falamos demais.
Falamos demais e escrevemos pouco. E, ainda nessa coisa de contexto, lemos ainda menos. E se não lemos, não temos exemplos de escrita. E, pelo que me consta, nenhum dos escritores que serviram de exemplo a mim e a muitos outros deixaram de escrever, ou proibíram que seus textos fossem reproduzidos em livros didáticos, nem nada parecido. O que foi que houve? Os professores cansaram de usar textos nas aulas de gramática? Pouco provável. A televisão, que sempre foi uma espécie de grande satã do intelecto, tornou as coisas ainda piores? Tenho minhas dúvidas. Ah, já sei. A culpa deve ser da internet, não é? Claro, como não pensei nisso antes? Essa fonte inesgotável de besteiras, pornografia, intolerância de toda espécie, teorias da conspiração e outras querelas mais, é ela que está transformando o cérebro dos nossos jovens (e não tão jovens) em mingau.
Mas quer saber um segredo? Todos os textos que prendiam minha cara no livro de língua de portuguesa na quinta série são facilmente encontrados nesta mesma internet. Que coisa, não?
3 junho 2008 às 3:27 pm
ghostwriter! =)