Da morte e da última lembrança a se guardar de quem se vai
Ontem morreu Tio Fonso. Jelfonso, irmão de minha mãe. Não estou triste, essencialmente, por dois motivos: primeiro, porque a única certeza que se pode ter da vida é a morte e segundo, porque, não bastassem as histórias que ele tinha pra contar em vida (era caminhoneiro e todo caminhoneiro que se preze tem muita hstória pra contar), deixou uma história fantástica para ser contada sobre sua morte. Minha mãe, irmã dele, contou que semana passada, muito provavelmente muito bêbado, ele arrancava mato de um quintal com as próprias mãos quando foi picado por uma cobra coral. Em vez de tentar capturar o reptil e rumar a um hospital para tentar tomar uma dose de soro antiofídico, ele a capturou, sim, mas abriu-lhe a boca, meteu-lhe cachaça (provavelmente, a mesma com a qual se embebedou) goela abaixo e então ateou-lhe fogo (PETA, Greenpeace e WWF que me perdoem, mas senti orgulho de ser sobrinho dele quando ouvi isso), reinventando a máxima de matar a cobra e mostrar o pau.
Mas não quero falar exatamente de Tio Fonso. Quero falar que, pela primeira vez, foram colocadas à prova, depois de (eventualmente des)barbado, minhas opiniões sobre a morte: de que ela vem para todos, às vezes naturalmente, às vezes de maneira engraçada, às vezes de maneira triste, estúpida e violenta, mas vem; e que depois de sua vinda, não há muito o que se fazer a respeito do morto além dos rituais circunstanciais. E que o jeito é cultivar as boas lembranças e cuidar dos vivos. E fico feliz dessas opiniões terem passado em seu primeiro teste, de terem feito da teoria, prática.
Um detalhe digno de menção é que nunca fui a um sepultamento. Não fui no de meu pai (talvez por ser muito novo à época e não entender o que era aquilo), não fui no de amigos que perdi (por já não ser tão novo e já entender o que era aquilo), não fui no de entes queridos de grandes amigos, não fui no de Tio Fonso e é possível que não vá a qualquer outro enterro durante minha vida.
Não gosto de cemitérios. Nunca gostei. Acho que quando era moleque, além das histórias de assombração que os moleques mais velhos contavam para assustar os do meu tamanho, o significado do cemitério em face à vida, daquele monte de gente chorando em volta de uma caixa de madeira por alguém que morreu, deve ter contribuído para isso. Agora, depois de crescido (não muito em altura), tenho outros motivos, mais racionais e mais antipáticos, para não gostar de cemitérios. E, por tabela, de todo o ritual envolvido.
Acho que posso dizer que, sob a influência (se boa ou má, não sei) de textos de cunho socialista, um dos motivos é de ordem política. A maioria absoluta dos grandes cemitérios são privados. Áreas enormes de terra que servem para fazer rodízio de corpos e alimentar a especulação imobiliária. Ainda sobre minhas opiniões a respeito da morte, agora sob influência (se boa ou má, não sei) de textos do Direito, morto é coisa, é objeto, logo, não sei se merece ser alvo de tanta reverência. E, agora sob a influência (decididamente boa) de textos de cunho biológico, em termos práticos, um corpo morto é carniça. Daí me pergunto: é justo, bom, correto, seja lá o que for, dispor de tanto espaço para manter mortos, coisas, carniça enquanto tantos vivos não tem onde morar? E olhe que nem vou citar os riscos ambientais (não resisto, vou citar um: contaminação de lençóis freáticos). Outro motivo diz respeito ao significado de ser enterrado. Para quê ser enterrado? Será que temos uma memória tão ruim a ponto precisarmos de um morto, coisa, carniça embaixo do chão e um monolito gravado (ou cruz de pinho de caixote pintada a cal; ou estátua de mármore carrara; fica a gosto - e posses – do freguês) acima como gatilho para que lembremos dos nossos mortos?
Outro motivo é… aliás, não sei explicar se é bem outro motivo. Talvez não seja. Pensando melhor, não, não é. Acho que são os mesmos motivos anteriores, só que de outra perspectiva. Um outro rito funeral conhecido é a cremação. Mas não é algo exatamente popular entre nós, tanto no sentido de número de adeptos, quanto, principalmente, no sentido de custo econômico. E às vezes acho isso absurdo, sabia? A cremação é uma prática mais antiga, mais racional e até mesmo mais higiênica em termos sanitários que o sepultamento. Mas acho que o grande problema é que, além de ser uma prática cara para a maioria, tira das pessoas a necessidade de ter algo em que tocar, ver, mesmo que o verdadeiro algo que elas querem, a pessoa que se foi, já não exista mais enquanto matéria.
Além do mais, o sepultamento não remete a algo bom. Além de toda a tristeza e dor envolvida no processo, da imagem de ver alguém que se gosta dentro de um caixão com chumaços de algodão no nariz e da última lembrança ser a de pás e mais pás de terra preenchendo um buraco onde jaz este mesmo alguém que se gosta, vamos lembrar das metáforas que envolvem a morte e o presumido sepultamento: vestir o paletó de madeira; comer capim pela raiz; ficar sob sete palmos de terra. Já sobre a cremação, a única metáfora que me vem à mente é a do mito da fênix que, depois de queimada, renasce das próprias cinzas.
Sabe no que eu penso às vezes? Já que existem cemitérios públicos, poder-se-iam criar crematórios públicos. Aí quem sabe os vivos pudessem se sentir mais conformados com a morte dos seus tendo a opção de, em vez de vestí-los num paletó de madeira para comerem capim pela raiz sob sete palmos de terra, poderem cremá-los.
Eu desejo que me cremem. Assim, se merecer, talvez eu renasça de minhas cinzas na memória dos que ficam.
16 setembro 2010 às 12:06 am
Welcome back, amigo! Ótimo texto. Devia escrever mais, sabia?
Quanto ao assunto… Eu sempre gostei daquela história de “…ao pó voltarás.” Quero voltar ao pó.
Comecei a lidar com perdas muito cedo, perdendo uma bisavó aos 5 anos, e não tinha nenhuma teoria a testar… só aconteceu. E fui lidando com aquilo. Acho que bastante bem, até. Precisei estar em vários velórios, mas o único enterro que precenciei foi o do meu avô (mais para dar apoio, porque eu nem queria ter ido). Mas a verdade é que também nunca entendi essa coisa de enterro.
Compartilho o repugno por enterros, cemitérios e afins, e pelos mesmos motivos. E digo mais: existem povos africanos que celebram a morte de pessoas que viveram uma boa vida. Acho bonito. Poder viver, deixar coisas boas, ter família, envelhecer e partir com a certeza de que os que ficam celebraram todas as coisas lindas que vivi, em lugar de lamentar minha morte, num desespero doentio de eternidade. Acredito na eternidade da alma. Só!
Já falei aos meus pais, e sempre falo ao meu marido (até porque não sei com quantos anos vou partir), que quando morrer, quero ser cremada e que minhas cinzas sejam jogadas fora (e se possível, que seja em alto mar, que pra se espalharem). Não quero deixar qualquer rastro da minha existência na Terra, que não seja nos genes de meus descendentes. Muito menos acumular restos em algum lugar, poluindo e ocupando espaço, para neguinho ir atrás e ficar lamentando. Espero que ninguém lamente a morte do meu corpo, e sim que celebrem a eternidade da minha alma.
Abração!!!
16 setembro 2010 às 11:33 am
Eita zorra, se brincar, o comentário ficou melhor que o texto, ahaha. Enfim, se a preguiçar não vencer, escrevo com mais frequência. Abraço!
5 março 2011 às 4:33 pm
Olha, continue com o bom trabalho neste blog!
2 agosto 2011 às 2:41 am
will, onde eu assino?
tava pensando justamente nisso hoje de tarde e por coincidencia (nao lembro como) fui cair no meio do seu blog. Eu tava angustiado com a possiblidade de morrer (mas nao por causa de mim), e sim pela dor que deixaria nos que aqui ainda ficariam. Tava vendo a historia de minha avó, que recentemente perdeu seu marido, e que mesmo após um ano ainda vive um luto terrível,mesmo nesse caso, no qual meu avô viveu uma vida bonita e criou todos os filhos com diginidade, com poucas manchas em toda a sua existência. Essa mesma minha vó perdeu tambem oito filhos, eu eu imagino a dor lancinante que ela deve ter sentido nesses oitos momentos: minha vó e uma sofredora. Ao mesmo tempo pensava no caso de Cissa Guimaraes, que perdeu o filho naquele episodio ano passado e carrega esse fardo com dignidade e prazer, sem tristeza, mas com saudade!
Joao Vinicius – seu colega da UEFS – 4º semestre