Da morte e da última lembrança a se guardar de quem se vai

Posted in Textos on 15 setembro 2010 by William Azevedo

Ontem morreu Tio Fonso. Jelfonso, irmão de minha mãe. Não estou triste, essencialmente, por dois motivos: primeiro, porque a única certeza que se pode ter da vida é a morte e segundo, porque, não bastassem as histórias que ele tinha pra contar em vida (era caminhoneiro e todo caminhoneiro que se preze tem muita hstória pra contar), deixou uma história fantástica para ser contada sobre sua morte. Minha mãe, irmã dele, contou que semana passada, muito provavelmente muito bêbado, ele arrancava mato de um quintal com as próprias mãos quando foi picado por uma cobra coral. Em vez de tentar capturar o reptil e rumar a um hospital para tentar tomar uma dose de soro antiofídico, ele a capturou, sim, mas abriu-lhe a boca, meteu-lhe cachaça (provavelmente, a mesma com a qual se embebedou) goela abaixo e então ateou-lhe fogo (PETA, Greenpeace e WWF que me perdoem, mas senti orgulho de ser sobrinho dele quando ouvi isso), reinventando a máxima de matar a cobra e mostrar o pau.

Mas não quero falar exatamente de Tio Fonso. Quero falar que, pela primeira vez, foram colocadas à prova, depois de (eventualmente des)barbado, minhas opiniões sobre a morte: de que ela vem para todos, às vezes naturalmente, às vezes de maneira engraçada, às vezes de maneira triste, estúpida e violenta, mas vem; e que depois de sua vinda, não há muito o que se fazer a respeito do morto além dos rituais circunstanciais. E que o jeito é cultivar as boas lembranças e cuidar dos vivos. E fico feliz dessas opiniões terem passado em seu primeiro teste, de terem feito da teoria, prática.

Um detalhe digno de menção é que nunca fui a um sepultamento. Não fui no de meu pai (talvez por ser muito novo à época e não entender o que era aquilo), não fui no de amigos que perdi (por já não ser tão novo e já entender o que era aquilo), não fui no de entes queridos de grandes amigos, não fui no de Tio Fonso e é possível que não vá a qualquer outro enterro durante minha vida.

Não gosto de cemitérios. Nunca gostei. Acho que quando era moleque, além das histórias de assombração que os moleques mais velhos contavam para assustar os do meu tamanho, o significado do cemitério em face à vida, daquele monte de gente chorando em volta de uma caixa de madeira por alguém que morreu, deve ter contribuído para isso. Agora, depois de crescido (não muito em altura), tenho outros motivos, mais racionais e mais antipáticos, para não gostar de cemitérios. E, por tabela, de todo o ritual envolvido.

Acho que posso dizer que, sob a influência (se boa ou má, não sei) de textos de cunho socialista, um dos motivos é de ordem política. A maioria absoluta dos grandes cemitérios são privados. Áreas enormes de terra que servem para fazer rodízio de corpos e alimentar a especulação imobiliária. Ainda sobre minhas opiniões a respeito da morte, agora sob influência (se boa ou má, não sei) de textos do Direito, morto é coisa, é objeto, logo, não sei se merece ser alvo de tanta reverência. E, agora sob a influência (decididamente boa) de textos de cunho biológico, em termos práticos, um corpo morto é carniça. Daí me pergunto: é justo, bom, correto, seja lá o que for, dispor de tanto espaço para manter mortos, coisas, carniça enquanto tantos vivos não tem onde morar? E olhe que nem vou citar os riscos ambientais (não resisto, vou citar um: contaminação de lençóis freáticos). Outro motivo diz respeito ao significado de ser enterrado. Para quê ser enterrado? Será que temos uma memória tão ruim a ponto precisarmos de um morto, coisa, carniça embaixo do chão e um monolito gravado (ou cruz de pinho de caixote pintada a cal; ou estátua de mármore carrara; fica a gosto  – e posses – do freguês) acima como gatilho para que lembremos dos nossos mortos?

Outro motivo é… aliás, não sei explicar se é bem outro motivo. Talvez não seja. Pensando melhor, não, não é. Acho que são os mesmos motivos anteriores, só que de outra perspectiva. Um outro rito funeral conhecido é a cremação. Mas não é algo exatamente popular entre nós, tanto no sentido de número de adeptos, quanto, principalmente, no sentido de custo econômico. E às vezes acho isso absurdo, sabia? A cremação é uma prática mais antiga, mais racional e até mesmo mais higiênica em termos sanitários que o sepultamento. Mas acho que o grande problema é que, além de ser uma prática cara para a maioria, tira das pessoas a necessidade de ter algo em que tocar, ver, mesmo que o verdadeiro algo que elas querem, a pessoa que se foi, já não exista mais enquanto matéria.

Além do mais, o sepultamento não remete a algo bom. Além de toda a tristeza e dor envolvida no processo, da imagem de ver alguém que se gosta dentro de um caixão com chumaços de algodão no nariz e da última lembrança ser a de pás e mais pás de terra preenchendo um buraco onde jaz este mesmo alguém que se gosta, vamos lembrar das metáforas que envolvem a morte e o presumido sepultamento: vestir o paletó de madeira; comer capim pela raiz; ficar sob sete palmos de terra. Já sobre a cremação, a única metáfora que me vem à mente é a do mito da fênix que, depois de queimada, renasce das próprias cinzas.

Sabe no que eu penso às vezes? Já que existem cemitérios públicos, poder-se-iam criar crematórios públicos. Aí quem sabe os vivos pudessem se sentir mais conformados com a morte dos seus tendo a opção de, em vez de vestí-los num paletó de madeira para comerem capim pela raiz sob sete palmos de terra, poderem cremá-los.

Eu desejo que me cremem. Assim, se merecer, talvez eu renasça de minhas cinzas na memória dos que ficam.

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17 de fevereiro de 2009

Posted in 1 on 17 fevereiro 2009 by William Azevedo

http://en.wikipedia.org/wiki/28_(number)

Uma pena a matemática me odiar.

A família brasileira e a corrente positiva pelo Brasil nos Jogos de Pequim

Posted in Textos on 17 agosto 2008 by William Azevedo

– Vai começar, vai começar!
– Ela tá disputando, né? Daiane?
– Tá, tá sim!
– Ó ela ali!
– Tá sumida ela, né?!
– É, só ganhou daquela vez e sumiu, ninguém mais ouve falar dela!
– Eu acho que ela devia parar, ela nem aparece mais na televisão, nem nada!
– Ah, essa galega é americana, né?!
– É, essa aí é que é a melhor, a que tá ganhando tudo!
– Ó lá, vai começar com ela!
– Eita, olhe como ela é boa no solo!
– Não é à toa que vai ganhar!
– Perfeita, perfeita! Não errou nada!
– Agora é a chinesa, ó lá!
– As chinesas também tão ganhando tudo, hein!
– Engraçado, porque é que chinês tem nariz de preto?!
– É que…
– Ó lá, ó lá, outra galega disputando!
– Também só tem galega na ginástica, né?!
– Oxe, não, tem Daiane e as chinesas, também!
– Ih, a galega errou!
– Tadinha dela, deve ter se preparado tanto!
– É, essas meninas são muito novinhas, é muita responsabilidade pra elas!
– Ó Daiane, ó Daiane!
– Será que ela ganha?!
– Ganha nada, parece que ela andou tendo uns problemas no joelho, e ela nem tem mais idade pra isso!
– Mas ela não tem só 22, 23 anos?!
– É, mas pra ginástica já é velha, a pessoa tem que começar com 11, 12 anos pra poder parar com 18! Aí sim, dá pra ganhar um monte de coisa!
– Ih, errou!
– Errou de novo, ó lá, pisou fora da linha!
– Credo, de novo essa música?! Ela não cansa, não?!
– Ah, mas não é possível, errou de novo!
– Tá vendo, eu disse que ela devia parar!
– Outra galega, outra galega!
– Outra americana! Essas americanas são demais!
– Ó como ela foi bem, ó!
– Outra chinesa!
– Mas ninguém sabe porque é que chinês tem nariz de preto?!
– Eu tava dizendo que…
– Outra galega!
– Ah, caiu!
– Tadinha! Tava indo tão bem!
– Mas é assim mesmo, ela treina mais pra próxima!

…Pois bem, caros telespectadores, agora a favorita à medalha de ouro…

– Ó aí, é essa galega que vai ganhar!
– Ela é americana, né?! É pra ela que eu vou torcer, pra campeã!
– Ela é romena.
– Ganhou! Ganhou!
– Eu falei, eu falei, sabia que ela ia ganhar!
– Tá vendo, a gente tem que torcer é pra quem ganha!

Conto

Posted in Contos on 1 julho 2008 by William Azevedo

Sônia, Ofélia e Aurora eram amigas já havia algum tempo. Sônia e Ofélia eram mulheres como todas as outras: estudaram em boas escolas, tiveram aulas de inglês, frequentavam as festas que todas as pessoas como elas frequentavam, iam às lanchonetes que iam todas as pessoas como elas, compravam nas lojas onde compravam todas as pessoas como elas, casaram-se com (e separaram-se de) homens que, também como elas, foram às mesmas escolas, mesmo inglês, mesmas festas, mesmas lanchonetes, mesmas lojas, mesmo tudo. Aurora, por sua vez, era uma mulher igual a todas as outras que não eram iguais a todas as outras.

Costumavam se encontrar aos fins de semana para colocar a conversa em dia: trabalho, livros, roupas, cinema, novelas, ciclo menstrual, vida alheia, homens, enfim, assuntos que mulheres conversam entre si, em pequenos bandos. Certa vez, quando homens eram o assunto da hora, veio à mesa que Sônia e Ofélia tiveram um ligeiro caso – não ao mesmo tempo – com um mesmo homem, um tal Tales. Tales não tinha nada. Não tinha beleza (se bem que, normalmente, isso não faz diferença alguma), não tinha dinheiro (isso, sim, faz), não tinha roupas de grife, não tinha sapatos caros, não tinha carro, não tinha casa, não tinha posses, não tinha sobrenome pomposo, não tinha amigos ricos, não tinha passaporte. Tales não tinha nada, qualquer um diria.

Lá pelas tantas, Sônia, que era a mais despachada, foi logo dizendo:

– Meninas, se eu bem soubesse, em vez de ter largado o meu marido, eu teria simplesmente me arrumado com Tales por fora! Nunca imaginei que, com ele, as coisas poderiam ser tão fáceis, sabiam? Às vezes eu acho que a vida a dois seria bem mais fácil se fosse a três, assim, quem precisa fazer boa figura pros outros, faz sua boa figura, quem precisa ter suas contas pagas, tem suas contas pagas, quem quer sexo, tem sexo e todos seguem felizes!

Ofélia, obviamente, concordou:

– Ai, ai, nem me fale! Não fosse pelo meu divórcio e por ele, eu continuaria acreditando que a vida não seria nada além das conversas chatas com meu marido sobre como foi o dia dele, sempre dele, no escritório, a vida dos vizinhos, dos colegas de trabalho, esse tipo de coisa. Sem contar que ele nunca fazia muita questão de passar seus dias de folga comigo! Mas, pensando bem, Tales não era lá dos mais falantes, viu? Era um tanto monossilábico. Mas sei lá, com ele, simplesmente dava certo do jeito que era, sem chatice, sem cobrança, sem compromisso. E você, Aurora, não tem nada de novo a dizer sobre sua vida amorosa?

Aurora, contrariando toda a lógica do universo feminino, foi simples e objetiva:

– Até tenho, mas como enxergo essa coisa de relacionamento de outra forma, talvez vocês não vejam nada de interessante. Mas vamos lá: conheci um homem esses dias e quanto mais convivo com ele, quanto mais o conheço, mais tenho mais certeza de que se ele não for o homem da minha vida, pelo menos ele é o homem perfeito agora. Lidamos bem com as manias um do outro.

Sônia e Ofélia riram da maneira como Aurora contava as coisas sem dizer muita coisa, todas elas riram sobre tudo o mais e, após mais conversa sobre outros assuntos dos quais se ocupam as mulheres, se despediram.

Aurora foi à casa de seu homem, um tipo meio estranho, um tanto monossilábico. Haviam combinado de irem ao cinema. Assim que chegou, foi preparar algo para comerem, já que ele não gostava de pipoca de cinema; sempre achou que tinha gosto de isopor. Enquanto ele lia um livro, ela preparava um sanduíche e puxava papo:

– Ah, estive com Sônia e Ofélia hoje, colocamos o papo em dia. Imagine só que elas me contaram que tiveram um caso com um mesmo cara. Não ao mesmo tempo, claro.

– Ah, é?

– É.

– Hum.

Então sorriram, cada um em seu canto, de canto de boca. Trocaram alguns beijos, comeram o sanduíche e foram ao cinema. Parece que era um filme novo de Woody Allen.

Internalfabetismo

Posted in Textos on 8 abril 2008 by William Azevedo

Algumas coisas deixam marcas indeléveis na nossa vida. Essas coisas ora nos fazem sorrir, ora nos fazem chorar, perder o sono, tremer, suar frio. Mas quando chega o momento em que conseguimos ter pleno domínio sobre elas, nos sentimos mais calmos, leves, felizes. Não, não estou falando de amor, paixão ou coisa que o valha. Até por que eu não sei se me referiria assim, com tanta eloquência, a algo que pode ser substituído de maneira relativamente fácil por chocolate (as mulheres que o digam).

Me refiro às, àquela altura, meus 10 ou 11 anos, “famigeradas” aulas de português. A razão do “famigeradas”: eu sempre gostei muito de ler, desde moleque. Era do tipo que pegava os livros de português assim que chegavam (escola pública, interior de Sergipe, os livros normalmente chegavam coisa de um mês após o início das aulas) e lia todos os textos logo de uma vez, pois era o que, objetivamente, me interessava. E isso é perfeitamente compreensível, afinal, paradoxalmente, ou não, os textos eram coisa de “gente grande”, como excertos de “Bisa Bia, Bisa Bel”, de Ana Maria Machado, como “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, “Lixo”, de Luís Fernando Veríssimo, “A Barata e o Rato”, de Millôr Fernandes, só pra citar alguns. Coisa muito fina.

Mas como tudo que é bom acaba, não importa o quanto dure, também não importava quantas vezes eu lesse ou relesse os textos, da frente para trás, de baixo para cima, ou qualquer outra ordem esdrúxula que pudesse existir para se ler qualquer texto, eles eram apoio para as lições de gramática. Essas sim, eram meu suplício. À essa altura, eu detestava língua portuguesa tanto quanto eu detesto matemática. Posso assegurar que detesto matemática o bastante para fazer esta comparação. Primeiro, porque, de alguma maneira que eu nunca conseguirei explicar, chegada a hora da aula, tudo aquilo que eu havia lido com tanto gosto simplesmente se esvanecia da minha mente, como se fosse alguma ordem da minha mãe para que eu me comportasse na escola; segundo, porque a norma culta da língua brasileira é, de fato, complicada. Por exemplo, eu, ainda hoje, não sei direito quando e como eu devo usar os “porquês” (qualquer hora dessas elejo um único “porquê” e mando a norma culta às favas). Junte-se a isso todas as outras regras de semântica, sintaxe, morfologia e tudo o mais, e temos aqui um aluno que deixa muito a desejar no que diz respeito ao conhecimento da escrita de sua língua. Mas, no ensino médio, se não me engano, mais uma vez de maneira que jamais saberei explicar, tudo que eu havia lido voltara à minha mente, agora, cheia de baboseiras adolescentes. Talvez fosse o que me faltava antes. Continuei (e continuo) não entendendo a maior parte das regras da língua, mas era impressionante como as coisas aconteciam de maneira espontânea na hora de escrever. Eu não sabia o porquê de uma vírgula estar em determinado lugar, mas sabia que ela ficava bem ali, e isso me era (e é) mais que suficiente. Acho que fui salvo por divindades da grandeza de Ana Maria (Machado, por favor), Drummond, Veríssimo e Millôr.

Agora vamos ao que interessa: qualquer um com acesso à internet, sobretudo sites de relacionamento, fotologs e afins, terá uma noção do quanto a juventude (e até mesmo alguns mais velhos) não sabem o que fazer com a língua em que falam, lêem e escrevem, principalmente a que escrevem. Não adianta me chamar de reacionário, por que isso eu não sou, nem adianta me falar que a língua é dinâmica e contextual, por que disso eu sei muito bem. Estão aí Marcos Bagno, Thaïs Christófaro Silva, Roque Laraia, Roberto DaMatta e outros que entendem de língua, de gente e de língua e de gente, que não me deixam mentir. No que diz respeito à contextualidade da língua, até me ofende alguém cogitar a possibilidade de eu simplesmente estar de birra com quem escreve “vc” em vez de “você”, “kd” em vez de “cadê”, “qd” em vez de “quando” e daí por diante. Primeiro, porque eu estou entre os que fazem essas mudanças, inclusive, por uma questão de dinamismo (e preguiça) ao conversar com algúem no ciberespaço, pois eu tenho consciência de que, em se comunicando, o importante é se fazer entender, e, se esse dialeto do ciberespaço, esse “internetês” (por favor, não confundir com o “minguxês”, que tem lá sua função lingüística: simplesmente, parecer idiota), é satisfatoriamente codificado pelo emissor e decodificado pelo receptor, ótimo, a língua cumpriu sua função dentro deste contexto; segundo, por que Ledo Ivo também já o fez com suas poesias, e ele está entre os que entendem da língua e de gente.

Mas o que dizer quando alguém escreve algo incognoscível, um monte de palavras emaranhadas que só fazem sentido para quem as escreveu, sendo que quem as escreveu tinha o intuito de transformar esse emaranhado de palavras numa mensagem a ser decodificada por um grupo? Se esse grupo consegue entender de fato (e eu duvido que consiga), já vi que estou completamente por fora. Não falo esse idioma.

Ainda apelando para a contextualidade: falamos a língua em que vivemos. Além de serem naturais e necessárias as mudanças inerentes à esta, é também perfeitamente natural que qualquer indivíduo cometa erros ortográficos de acordo com a norma culta, afinal, a norma culta do português do Brasil consegue ser complexa como poucas. Considerando a vedete econômica que se tornou a China, não duvido que chegue um dia em que falemos chinês melhor que falamos a língua mãe. Mas estou me desviando do assunto, o falar é o mínimo, eu até acho que é a mais primitiva demonstração de capacidade. Acho também que, às vezes, falamos demais.

Falamos demais e escrevemos pouco. E, ainda nessa coisa de contexto, lemos ainda menos. E se não lemos, não temos exemplos de escrita. E, pelo que me consta, nenhum dos escritores que serviram de exemplo a mim e a muitos outros deixaram de escrever, ou proibíram que seus textos fossem reproduzidos em livros didáticos, nem nada parecido. O que foi que houve? Os professores cansaram de usar textos nas aulas de gramática? Pouco provável. A televisão, que sempre foi uma espécie de grande satã do intelecto, tornou as coisas ainda piores? Tenho minhas dúvidas. Ah, já sei. A culpa deve ser da internet, não é? Claro, como não pensei nisso antes? Essa fonte inesgotável de besteiras, pornografia, intolerância de toda espécie, teorias da conspiração e outras querelas mais, é ela que está transformando o cérebro dos nossos jovens (e não tão jovens) em mingau.

Mas quer saber um segredo? Todos os textos que prendiam minha cara no livro de língua de portuguesa na quinta série são facilmente encontrados nesta mesma internet. Que coisa, não?

“Tá com pressa, puta?”

Posted in Textos on 5 março 2008 by William Azevedo

Eu gosto do mundo moderno e do constante desenvolvimento da tecnologia. De verdade. Pesquisas com células tronco, videogames de última geração, televisões de plasma, biocombustíveis, telefones tocadores de música com telas sensíveis ao toque, internet móvel e todas essas utilidades e inutilidades que permeiam nossa vida hoje em dia. Apesar de todos os pesares (que não são poucos), eu tenho convicção de que todas as invenções de nossa era foram pensadas com o intuito de facilitar a nossa vida. Intuito esse que deveria ser uma das premissas básicas da existência humana. Mas existe uma variável muito, muito complicadora: o ser humano.
Prova inquestionável do quão complicadora é essa variável são os veículos automotores que, depois da internet (pelo menos enquanto o teletransporte não transcende a série Jornada nas Estrelas), são os maiores encurtadores de distâncias que eu conheço. Se você quiser conhecer toda a Sudamérica, não há dúvidas de que um veículo automotor será de grande utilidade. O mesmo vale se você quiser conhecer todo o país. Ou todo o estado. Ou aquela simpática cidadezinha vizinha à sua, cuja maior efervescência social resume-se à praça da igreja matriz nas manhãs de domingo.
Mas, obviamente, não há problema algum no caso de você ter objetivos mais modestos: se você quiser simplesmente se deslocar de sua confortável morada até a padaria, à casa de sua ou seu consorte, ao cinema, ao salão de beleza, à hoje mais cobiçada do que nunca (e, com base em acontecimentos recentes, de facílimo acesso) faculdade, ao bar no centro da cidade, ao teatro, a uma casa de shows, ao trabalho, ao diabo que te carregue, sim, um veículo automotor – tá, tá, usemos as palavras “carro” e “moto”, daqui por diante – será de grande utilidade.
Ah, o homem, este adorável ser que, quando vivendo em sociedade, tem a capacidade incrível de estragar tudo. Vez ou outra se vê nos meios de comunicação que um dos grandes problemas das grandes metrópoles é o trânsito. O trânsito. Aquilo que deveria ser a respeitosa e cordial interação entre todos aqueles que precisam se locomover, pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas, nesta ordem de importância, hoje é um dos grandes males do mundo atual (usei o termo “moderno” no início, mas confesso que com medo. “Atual” é um termo menos suscetível à obsolescência). Em todos os jornais, e em telejornais, e em revistas, e em blogs, e em sinais de fumaça (literalmente), e em pessoas com fraturas diversas se vê o caos que está o trânsito nestas grandes metrópoles. Bom, como eu não sou engenheiro de tráfego, só posso me limitar a repetir o que dizem os especialistas que aparecem nos noticiários de quando em vez tratando do assunto: a culpa é do transporte público ineficiente, das condições tentadoras à aquisição de um automóvel, à nossa sociedade cada vez mais individualista, consumista e imediatista, et cetera, et cetera, et cetera. E olhe quem eu nem vou entrar na seara da poluição em tempos de aquecimento global.
E tendo em vista o desolador atual estado das coisas, tem como piorar? É claro que tem! É só parar para imaginar que todos estes transtornos das grandes metrópoles acontecem (guardadas as devidas proporções, espero que seja desnecessário lembrar) em cidades de médio porte, com, digamos, seiscentos e poucos mil habitantes. E essa cidade existe? É claro que existe! Senhoras e senhores, abram alas para Feira de Santana – BA.
Ah, o homem feirense, este adorável ser que, quando dentro de seus carros ou em cima de suas motos, a pé ou de bicicleta, e mesmo guiando suas carroças de burro, esquecem que vivem em sociedade e que fazem parte do que deveria ser uma respeitosa e cordial interação entre todos aqueles que precisam se locomover (estou me repetindo? É de propósito) e, dentro de seus carros… Enfim, o que eu quero dizer é que a maioria esmagadora dos condutores deixam o bom senso, isso quando não o cérebro inteiro, em casa ao pegar seus veículos a caminho de seu destino. Não existem limites de velocidade, Todos sempre precisam tirar o pai da forca e esquecem que algumas pessoas podem ter urgência de fato (mesmo as que não tem carro). Pra essas pessoas não existem faixas, nem de ultrapassagem e, muitas vezes, nem de pedestres, não se usam setas para sinalizar uma curva ou uma simples mudança de faixa (mas pensando bem, qual a utilidade de se sinalizar a ida para algo que não existe, não é mesmo?), ou seja, não se usa a educação. É, educação, porque quando estamos nos nossos carros temos a oportunidade de ser quem realmente somos: individualistas, mesquinhos, incapazes de pensar na segurança alheia, mal-educados. Melhor dizendo, grandes e completos idiotas. É, idiotas.
Pra ficar bem claro: você estaciona em fila dupla enquanto alguém que estava com você no carro vai fazer umas comprinhas “rapidinho, não multa, não, seu guarda, já volto” atrapalhando o já caótico trânsito da cidade? Você é um idiota. Você tem uma dessas caminhonetes mastodônticas super caras e acha que tem preferência simplesmente por que o tamanho do seu carro é inversamente proporcional ao tamanho do seu bilau? Você é um idiota. Você acha que precisa cruzar a cidade em menos tempo que Michael Schumacher completaria o quilômetro de arranque na pista do “aeroporto”? Você é um idiota. Você acha que vive atrasado e que nunca tem tempo pra nada, pois o mundo gira ao seu redor e que se você parar ele também pára? Você é um idiota. E a pergunta definitiva, feita em maiúsculas pra ficar bem clara para todo morador de Feira de Santana: VOCÊ ACHA QUE VIVE NUMA MEGA-METRÓPOLE ONDE O TEMPO É MATÉRIA-PRIMA ESSENCIAL PARA TODO E QUALQUER OBJETIVO SEU, SEJA PROFISSIONAL, AMOROSO, FINANCEIRO, RELIGIOSO, SEXUAL OU SEJA LÁ QUE DIABOS FOR? VOCÊ É, IRREVERSIVELMENTE, UM GRANDESSÍSSIMO IDIOTA DE MERDA.
É isso. Duvido que o trânsito feirense melhore graças a essas mal-digitadas linhas, mas me sinto melhor por simplesmente poder falar dessa mazela toda.

Ah, a propósito do título, se me lembro bem, foi a primeira piada com um palavrão adulto, de fato, que eu aprendi. Transcrição do diálogo da primeira vez que eu contei pra alguém:

-Aí, quer ouvir uma piada que eu aprendi?
-Conte aí.
-É assim, tava o cara com o carro parado, daí encostou uma mulher num carro, no fundo do dele, toda apressada, buzinando o tempo todo. Daí toda vez que ela buzinava ele falava “tá com pressa, puta?”. E assim ficou um tempão: “bibííí”; “tá com pressa, puta?”. “Bibíííí!!!”; “tá com pressa, puta?”.
-…
-…
-…
-E a piada, vai terminar de contar, não?
-”Tá com pressa, puta?”